Nem todo mundo sabe, mas Manuel Bandeira teve vários poemas musicados e fez letras para várias canções de compositores como Villa-Lobos, Jaime Ovalle, Radamés Gnattali e Mignone. Em Itinerário de Pasárgada o poeta faz alguns comentários sobre sua obra musical e sobre o ofício de fazer letras.
"Pode suceder que depois de pronto o trabalho o compositor ensaia a música e diz: 'Ah, você tem que mudar esta rima em i, porque a nota é agudíssima e fica muito difícil emiti-la nessa vogal.' E lá se vai a igrejinha do poeta! Do poeta propriamente, não: nesse ofício costumo pôr a poesia de lado e a única coisa que procuro é achar as palavras que caiam bem no compasso e no sentimento da melodia."
Um outro comentário que Bandeira faz a respeito de música e que eu considero de valor histórico é sobre o Parabéns pra você:

"Em 1945 Villa-Lobos, tomado de nojo pela mania em que andavam (e ainda andam) os brasileiros de cantar nas festas de aniversário a cacetíssima Happy Birthday to You, resolveu compor para essa e outras ocasiões uma série de canções de sabor brasileiro, a que deu o título de Canções de Cordialidade."
'Amigo, seja bem-vindo!
A casa é sua.
Não faça cerimônia.
Vá pedindo, vá mandando'."
Segundo Bandeira, ele (modestamente) não sabia a que atribuir a predileção de vários compositores por sua parceria. Cita, porém, como elemento primordial a musicalidade encontrada em sua poesia. A partir de comentários do crítico Andrade Muricy, faz algumas considerações sobre a musicalidade dos versos, seus limites e sobre até que ponto as duas artes (poesia e música) estão entrelaçadas:
Um outro comentário que Bandeira faz a respeito de música e que eu considero de valor histórico é sobre o Parabéns pra você:

"Em 1945 Villa-Lobos, tomado de nojo pela mania em que andavam (e ainda andam) os brasileiros de cantar nas festas de aniversário a cacetíssima Happy Birthday to You, resolveu compor para essa e outras ocasiões uma série de canções de sabor brasileiro, a que deu o título de Canções de Cordialidade."
E reafirma sua valorização da língua do povo, "que fala gostoso o português do Brasil":
"Nos textos para essas canções tive a preocupação de me servir tanto quanto possível das frases feitas da nossa linguagem coloquial. Sobretudo em 'Boas-Vindas': 'Amigo, seja bem-vindo!
A casa é sua.
Não faça cerimônia.
Vá pedindo, vá mandando'."
Segundo Bandeira, ele (modestamente) não sabia a que atribuir a predileção de vários compositores por sua parceria. Cita, porém, como elemento primordial a musicalidade encontrada em sua poesia. A partir de comentários do crítico Andrade Muricy, faz algumas considerações sobre a musicalidade dos versos, seus limites e sobre até que ponto as duas artes (poesia e música) estão entrelaçadas:
"Há nessas palavras do crítico uma nota preciosa: é quando ele fala na musicalidade - de música propriamente dita - inserida na musicalidade subentendida, por vezes inexpressa ou simplesmente indicada, da poesia. A isso eu já havia chegado em minhas reflexões, estudando a música a que os meus versos serviram de texto. Foi vendo "a musicalidade subentendida" dos meus poemas desentranhada em "música propriamente dita" que compreendi não haver verdadeiramente música num poema e que dizer que um verso canta é falar por imagem. [...] A 'musicalidade subentendida' poderia ser definida por outro músico noutra linha melódica. O texto será como que baixo-numerado contendo em potência numerosas melodias"
Mário de Andrade, em seu Pequena História da Música, afirma que a música, apesar de escrava da palavra, tornara-se uma escrava despótica. "Não deixa a palavra falar por si. Quer sublinhar o sentido dela por meio dos intervalos melódicos, dos ritmos, harmonias e timbres."
Para Bandeira, porém, a música nunca deixou a palavra "'falar por si', mesmo no tempo do cantochão. É que por maiores que sejam as afinidades entre duas artes, sempre as separa uma espécie de abismo. Nunca a palavra cantou por si, e só com a música pode ela cantar verdadeiramente."
Mallarmé definiu em Divagations que "as palavras iluminam-se de reflexos recíprocos como um virtual rastilho de luzes sobre pedrarias... Esse caráter aproxima-se da espontaneidade da orquestra: buscar diante de uma ruptura dos grandes ritmos literários e sua dispersão em frêmitos articulados, próximos da instrumentação, uma arte de rematar a transposiçãao para o livro da sinfonia..."
Bandeira concorda com essas afirmações mas reforça que "a autêntica melodia estará sempre ausente". Dessa forma achou a resposta que Mallarmé deu a Debussy - "Je croyais y en avoir mis dejá assez" (algo como "creio já ter colocado o suficiente"), quando este lhe comunicou haver colocado música em seu poema L'apres-midi d'un faune "descabida presunção de poeta". Bandeira diz: "Tinha posto muita, com efeito, mas só e a bastante que um poeta pode pôr nos seus poemas."
Encerrando estes breves comentários, gostaria apenas de deixar aqui uma das ilustrações do poema L'aprés-midi d'un faune, feita por Manet, um dos pais da Arte Moderna, e o link para a música de Debussy, que é considerada um divisor de águas na história da música, uma das que deram o pontapé inicial na Música Moderna.
O poema conta a história de um fauno que toca sua flauta pelos bosques e fica excitado com a passagem de ninfas e náiades, e tenta alcançá-las em vão. Então, muito cansado e fraco, cai em um sono profundo e passa a sonhar com visões que o levam a atingir os objetivos que dentro da realidade não tinha alcançado.
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