segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Manuel Bandeira e as letras de música




Nem todo mundo sabe, mas Manuel Bandeira teve vários poemas musicados e fez letras para várias canções de compositores como Villa-Lobos, Jaime Ovalle, Radamés Gnattali e Mignone. Em Itinerário de Pasárgada o poeta faz alguns comentários sobre sua obra musical e sobre o ofício de fazer letras.
É interessante notar como a opinião dele fecha com a de letristas como Murilo Antunes e Fernando Brant que, no livro Palavras Musicais, emitem uma opinião semelhante no que diz respeito à diferença entre escrever um poema e uma letra de música. Ele diz:

"Pode suceder que depois de pronto o trabalho o compositor ensaia a música e diz: 'Ah, você tem que mudar esta rima em i, porque a nota é agudíssima e fica muito difícil emiti-la nessa vogal.' E lá se vai a igrejinha do poeta! Do poeta propriamente, não: nesse ofício costumo pôr a poesia de lado e a única coisa que procuro é achar as palavras que caiam bem no compasso e no sentimento da melodia."

Um outro comentário que Bandeira faz a respeito de música e que eu considero de valor histórico é sobre o Parabéns pra você:


"Em 1945 Villa-Lobos, tomado de nojo pela mania em que andavam (e ainda andam) os brasileiros de cantar nas festas de aniversário a cacetíssima Happy Birthday to You, resolveu compor para essa e outras ocasiões uma série de canções de sabor brasileiro, a que deu o título de Canções de Cordialidade."


E reafirma sua valorização da língua do povo, "que fala gostoso o português do Brasil":

"Nos textos para essas canções tive a preocupação de me servir tanto quanto possível das frases feitas da nossa linguagem coloquial. Sobretudo em 'Boas-Vindas': 

'Amigo, seja bem-vindo! 
A casa é sua. 
Não faça cerimônia. 
Vá pedindo, vá mandando'."

Segundo Bandeira, ele (modestamente) não sabia a que atribuir a predileção de vários compositores por sua parceria. Cita, porém, como elemento primordial a musicalidade encontrada em sua poesia. A partir de comentários do crítico Andrade Muricy, faz algumas considerações sobre a musicalidade dos versos, seus limites e sobre até que ponto as duas artes (poesia e música) estão entrelaçadas:

"Há nessas palavras do crítico uma nota preciosa: é quando ele fala na musicalidade - de música propriamente dita - inserida na musicalidade subentendida, por vezes inexpressa ou simplesmente indicada, da poesia. A isso eu já havia chegado em minhas reflexões, estudando a música a que os meus versos serviram de texto. Foi vendo "a musicalidade subentendida" dos meus poemas desentranhada em "música propriamente dita" que compreendi não haver verdadeiramente música num poema e que dizer que um verso canta é falar por imagem. [...] A 'musicalidade subentendida' poderia ser definida por outro músico noutra linha melódica. O texto será como que baixo-numerado contendo em potência numerosas melodias"

Mário de Andrade, em seu Pequena História da Música, afirma que a música, apesar de escrava da palavra, tornara-se uma escrava despótica. "Não deixa a palavra falar por si. Quer sublinhar o sentido dela por meio dos intervalos melódicos, dos ritmos, harmonias e timbres."

Para Bandeira, porém, a música nunca deixou a palavra "'falar por si', mesmo no tempo do cantochão. É que por maiores que sejam as afinidades entre duas artes, sempre as separa uma espécie de abismo. Nunca a palavra cantou por si, e só com a música pode ela cantar verdadeiramente."

Mallarmé definiu em Divagations que "as palavras iluminam-se de reflexos recíprocos como um virtual rastilho de luzes sobre pedrarias... Esse caráter aproxima-se da espontaneidade da orquestra: buscar diante de uma ruptura dos grandes ritmos literários e sua dispersão em frêmitos articulados, próximos da instrumentação, uma arte de rematar a transposiçãao para o livro da sinfonia..."

Bandeira concorda com essas afirmações mas reforça que "a autêntica melodia estará sempre ausente". Dessa forma achou a resposta que Mallarmé deu a Debussy - "Je croyais y en avoir mis dejá assez" (algo como "creio já ter colocado o suficiente"), quando este lhe comunicou haver colocado música em seu poema L'apres-midi d'un faune "descabida presunção de poeta". Bandeira diz: "Tinha posto muita, com efeito, mas só e a bastante que um poeta pode pôr nos seus poemas."


MANET, Edouard. Retrato de Stéphane Mallarmé. 1876. Óleo sobre tela. Musée d'Orsay. Paris, França.

Encerrando estes breves comentários, gostaria apenas de deixar aqui uma das ilustrações do poema L'aprés-midi d'un faune, feita por Manet, um dos pais da Arte Moderna, e o link para a música de Debussy, que é considerada um divisor de águas na história da música, uma das que deram o pontapé inicial na Música Moderna.

O poema conta a história de um fauno que toca sua flauta pelos bosques e fica excitado com a passagem de ninfas e náiades, e tenta alcançá-las em vão. Então, muito cansado e fraco, cai em um sono profundo e passa a sonhar com visões que o levam a atingir os objetivos que dentro da realidade não tinha alcançado.