terça-feira, 27 de março de 2012

Toquinho e Vinícius



"Quem não gostaria de ser o Vinícius?" Foi ao me pegar dizendo essa frase que pensei em escrever um pouquinho sobre uma das parcerias especiais que Vinícius travou ao longo de sua vida: a parecria com Toquinho. Falar de Vinícius de Moraes em uma única postagem num blog seria por demais incompleto, pois ele era um ser humano dotado de muitas facetas, um dos maiores poetas que a língua portuguesa já conheceu.

Tudo começou a bordo do navio Eugênio C, em junho de 1970, rumo a Buenos Aires. Toquinho fala sobre isso: "Era um tempo em que Vinicius ainda evitava viajar de avião, então fomos para a Argentina de navio. Eu sentia uma sensação estranha, não sabia direito o que é que eu ia fazer lá. De repente, estava a bordo de um navio junto com Vinicius de Moraes, um ser humano grandioso de quem até então eu conhecia quase nada, a não ser o que ele tinha escrito e cantado por aí.

Sei que na primeira noite no navio eu passei muito mal, foi um horror. Pegamos uma tempestade no Golfo de Santa Catarina, e eu no meu quarto, enjoado, com tudo a balançar por todos os lados. Até marinheiro vomitava. E Vinicius sentado a uma escrivaninha, segurando o copo para que ele não caísse, e conversando naturalmente, sem se alterar. Ficou lá ao meu lado, como um pai, ou melhor, como alguém com pretensões de se fazer amigo. Nossa relação começou assim, e logo de cara eu passei a vê-lo um pouco como irmão, porque ele não sabia ser velho, o que na realidade ele não era."



A primeira canção de autoria da dupla é Como dizia o poeta. Considero a letra dessa música, de cuja filosofia compartilho às vezes mais às vezes menos (como convém aos sentimentos verdadeiros), belíssima:


Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai

Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não

Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

A partir daí, compuseram muito juntos e fizeram diversos shows, com participações de belas vozes femininas da música brasileira, como Maria Creuza e Miúcha.

Um dos motivos determinantes para o sucesso da dupla foi terem se encontrado no momento mais adequado para ambos. Vinícius já havia dado enorme contribuição à música brasileira e se encontrava em um momento de crise criativa. Para muitos, o Poetinha já havia vivido seus melhores dias. Toquinho estava ainda no início de sua carreira e tinha toda disponibilidade para o poeta. Com a identificação mútua e a busca pela simplicidade, as canções nasceram como lindas filhas de um artesanato diário.

De acordo com Toquinho, "naquela altura, eu tinha o que o Vinicius queria: uma pessoa que tivesse disponibilidade para ficar trabalhando com ele, e que tivesse uma linguagem nova. Eu era totalmente disponível e motivado a ficar do lado dele. 

E sempre procurei fazer uma música que não fosse hermética, buscando uma simplicidade que acabou se tornando especial e me caracterizando com um estilo muito próprio dentro da música popular brasileira. Meu repertório se caracteriza pela simplicidade. 

Era o que Vinicius queria. Um comportamento musical ligado com a própria vida, mais solta, livre, natural. Refletia-se tudo isso, por exemplo, nas músicas infantis que fizemos, da melhor qualidade."


Tive a felicidade de ouvir muitas dessas músicas quando era criança, no álbum "Arca de Noé". Desse álbum, reproduzo aqui A casa:


Sobre Vinícius, Toquinho diz:

"Jamais enxerguei Vinicius como um pai de postura paternal e protetora", observa Toquinho. "Mesmo porque ele não agia assim nem com os próprios filhos. A feição de pai surgia por sua grande sabedoria de vida, por saber mais do que a maioria das pessoas. Talvez o homem de maior sabedoria de vida que eu tenha conhecido. Ao mesmo tempo, quando se via diante de uma pessoa muito simples, chegava a se emocionar até os olhos se encherem de lágrimas. 

De repente, esse pretenso ar paterno que ele poderia ter em relação a mim ia por água abaixo quando ele se tornava essa criatura frágil, com toda a sabedoria de poeta. Vinicius carregava dentro dele o jovem disposto e disponível à vida; que arriscava nas coisas, despojado e solto. Na nossa relação, eu era o fio-terra, quem se preocupava aqui embaixo conduzindo as coisas. E ele, o cosmonauta, o voador, que partia mesmo! 

Mas, por mais controvertido que pareça, ele foi a pessoa que me ensinou a ser profissional, a respeitar horários, pessoas e valores. Isso reflete as contradições desse grande poeta, que se debatia entre livrar-se das amarras da vida e seguir as ordens dessa coisa ilógica que é a própria vida. Dizia que o cotidiano é a ferrugem da vida, e fazia tudo para ludibriar essa ferrugem do dia-a-dia. Mas ao mesmo tempo que odiava esse lado massacrante da vida, procurava harmonizar-se com isso tudo. Em cada gesto, em cada passo que dava, nos sentidos mais variados, buscava essa harmonia. Um homem que nunca soube viver sem poesia, e Vinicius viveu como poeta. 

Ser poeta é uma coisa. Mas viver como poeta é dilacerante, arrebenta o homem por dentro. Na rapidez do cotidiano quase sempre não cabe a poesia, e o Vinicius não conseguia viver longe dela. A poesia o acompanhava o tempo inteiro e ele se debatia com ela, sempre suscetível ao enfoque poético das pessoas e das coisas. Para ele, tudo era natural. Vinicius me passou todas essas variáveis humanas e, se aprendi, é porque já devia ter uma tendência para isso".

Uma dos momentos de que mais gosto da dupla é um show que fizeram com a cantora Maria Creuza. reproduzo aqui um momento em que tocaram Como dizia o poeta e a singela Onde anda você, linda canção de saudade. Aliás, o tema "músicas de saudade" é um tema ao qual quero dedicar uma postagem deste blog. Nesse quesito, Vinícius era também mestre:



Belíssimo momento, pra ficar na história.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Manuel Bandeira e as letras de música




Nem todo mundo sabe, mas Manuel Bandeira teve vários poemas musicados e fez letras para várias canções de compositores como Villa-Lobos, Jaime Ovalle, Radamés Gnattali e Mignone. Em Itinerário de Pasárgada o poeta faz alguns comentários sobre sua obra musical e sobre o ofício de fazer letras.
É interessante notar como a opinião dele fecha com a de letristas como Murilo Antunes e Fernando Brant que, no livro Palavras Musicais, emitem uma opinião semelhante no que diz respeito à diferença entre escrever um poema e uma letra de música. Ele diz:

"Pode suceder que depois de pronto o trabalho o compositor ensaia a música e diz: 'Ah, você tem que mudar esta rima em i, porque a nota é agudíssima e fica muito difícil emiti-la nessa vogal.' E lá se vai a igrejinha do poeta! Do poeta propriamente, não: nesse ofício costumo pôr a poesia de lado e a única coisa que procuro é achar as palavras que caiam bem no compasso e no sentimento da melodia."

Um outro comentário que Bandeira faz a respeito de música e que eu considero de valor histórico é sobre o Parabéns pra você:


"Em 1945 Villa-Lobos, tomado de nojo pela mania em que andavam (e ainda andam) os brasileiros de cantar nas festas de aniversário a cacetíssima Happy Birthday to You, resolveu compor para essa e outras ocasiões uma série de canções de sabor brasileiro, a que deu o título de Canções de Cordialidade."


E reafirma sua valorização da língua do povo, "que fala gostoso o português do Brasil":

"Nos textos para essas canções tive a preocupação de me servir tanto quanto possível das frases feitas da nossa linguagem coloquial. Sobretudo em 'Boas-Vindas': 

'Amigo, seja bem-vindo! 
A casa é sua. 
Não faça cerimônia. 
Vá pedindo, vá mandando'."

Segundo Bandeira, ele (modestamente) não sabia a que atribuir a predileção de vários compositores por sua parceria. Cita, porém, como elemento primordial a musicalidade encontrada em sua poesia. A partir de comentários do crítico Andrade Muricy, faz algumas considerações sobre a musicalidade dos versos, seus limites e sobre até que ponto as duas artes (poesia e música) estão entrelaçadas:

"Há nessas palavras do crítico uma nota preciosa: é quando ele fala na musicalidade - de música propriamente dita - inserida na musicalidade subentendida, por vezes inexpressa ou simplesmente indicada, da poesia. A isso eu já havia chegado em minhas reflexões, estudando a música a que os meus versos serviram de texto. Foi vendo "a musicalidade subentendida" dos meus poemas desentranhada em "música propriamente dita" que compreendi não haver verdadeiramente música num poema e que dizer que um verso canta é falar por imagem. [...] A 'musicalidade subentendida' poderia ser definida por outro músico noutra linha melódica. O texto será como que baixo-numerado contendo em potência numerosas melodias"

Mário de Andrade, em seu Pequena História da Música, afirma que a música, apesar de escrava da palavra, tornara-se uma escrava despótica. "Não deixa a palavra falar por si. Quer sublinhar o sentido dela por meio dos intervalos melódicos, dos ritmos, harmonias e timbres."

Para Bandeira, porém, a música nunca deixou a palavra "'falar por si', mesmo no tempo do cantochão. É que por maiores que sejam as afinidades entre duas artes, sempre as separa uma espécie de abismo. Nunca a palavra cantou por si, e só com a música pode ela cantar verdadeiramente."

Mallarmé definiu em Divagations que "as palavras iluminam-se de reflexos recíprocos como um virtual rastilho de luzes sobre pedrarias... Esse caráter aproxima-se da espontaneidade da orquestra: buscar diante de uma ruptura dos grandes ritmos literários e sua dispersão em frêmitos articulados, próximos da instrumentação, uma arte de rematar a transposiçãao para o livro da sinfonia..."

Bandeira concorda com essas afirmações mas reforça que "a autêntica melodia estará sempre ausente". Dessa forma achou a resposta que Mallarmé deu a Debussy - "Je croyais y en avoir mis dejá assez" (algo como "creio já ter colocado o suficiente"), quando este lhe comunicou haver colocado música em seu poema L'apres-midi d'un faune "descabida presunção de poeta". Bandeira diz: "Tinha posto muita, com efeito, mas só e a bastante que um poeta pode pôr nos seus poemas."


MANET, Edouard. Retrato de Stéphane Mallarmé. 1876. Óleo sobre tela. Musée d'Orsay. Paris, França.

Encerrando estes breves comentários, gostaria apenas de deixar aqui uma das ilustrações do poema L'aprés-midi d'un faune, feita por Manet, um dos pais da Arte Moderna, e o link para a música de Debussy, que é considerada um divisor de águas na história da música, uma das que deram o pontapé inicial na Música Moderna.

O poema conta a história de um fauno que toca sua flauta pelos bosques e fica excitado com a passagem de ninfas e náiades, e tenta alcançá-las em vão. Então, muito cansado e fraco, cai em um sono profundo e passa a sonhar com visões que o levam a atingir os objetivos que dentro da realidade não tinha alcançado.