terça-feira, 12 de agosto de 2014

Luiz Gabriel Lopes

Hoje, quero falar de Luiz Gabriel Lopes. Confesso que, apesar de ter entrado em contato direto com seu trabalho há alguns meses, ainda conheço muito pouco sobre ele. Tenho apenas algumas impressões sobre sua música a apresentar.



É um ponto de vista personalíssimo e cheio de buracos, fruto do pouco que conheço e do que ignoro. Neste texto, inclusive, acabo abordando um aspecto bem específico de suas composições, em especial das letras.

Ter entrado em contato com sua música foi ter encontrado um verdadeiro manancial de ideias sonoras e uma poesia muito sensível, ao mesmo tempo em que muito direta e sem adornos desnecessários.

A primeira que ouvi foi Lembrete (LG Lopes / Gustavito / Chicó do Céu), que em minha opinião é bem representativa de um dos traços mais interessantes de algumas de suas letras.

É algo de que sinto muita falta na arte atual, mas que acho difícil definir. Tem a ver com talvez um dos mais antigos papéis da arte, que é representar a ligação do homem com o desconhecido. Não se trata, porém, do desconhecido como mistério, mas de uma jornada em direção ao auto-conhecimento e ao conhecimento do universo ao seu redor.

despertar pra uma nova travessia
deixar esvaziar
saber que a hora certa logo vem
sem pressa, deixa estar que não demora

Acho significativo o fato de alguém parecer cantar "depressa" ao invés de "sem pressa" no vídeo. É muito difícil remar contra essa maré da pressa, eficiência, velocidade máxima o máximo de tempo possível. Mas a arte ajuda!

Se concentre meu amigo
no impulso que nos faz cantar
e faz brotar a poesia sempre devagar 
e é devagar que se desfaz 
todo medo que insiste em apertar os nós mas meu amigo

reconhece-te a ti mesmo


dê valor ao caminho que te escolhe 

palavras têm poder
e os rastros que deixamos por aí
depressa vão chegar no infinito





Esse "libertar (d)o medo" também está muito presente em suas letras. A fé naquilo que vem "do alto", a vida guiada pelas estrelas, o ritmo natural, das marés, da chuva. Expressões de vida tão naturais quanto  despertar para dentro. Para isso, é necessário Desprendimento.

sono da maré
oração da chuva
deixa essa criança libertar o medo que você guardou
estrelas que levem no rumo certo
a estrada é o que vale a viagem
livre da tristeza o passo firme o peito forte aberto

ir pra dentro é despertar
desprender o brilho e receber o dia

Indo por esse caminho, a música vai além do mero exercício poético, do jogo de palavras, mas é veículo a expressar e despertar ideias e sentimentos que vou chamar aqui de maiores, na falta de um termo mais exato. E, através da simplicidade de sua forma, a letra consegue algo extremamente difícil: falar da existência humana, de sua fé, sem ser dogmático ou piegas. Consegue, de forma muito sutil, evocar os melhores sentimentos de paz e harmonia. Abaixo, um trecho de 1986.


transformando a fé numa oração pra se cantar



sim eu sei que há 

essa poeira que te faz latinoamericano e forte como eu

de sangue índio, vagabundo,

abençoado pelo rio e pelo sol:

ancestralidade de um cometa 

que passou naquele ano em que eu nasci

e me contou que éramos muitos por aí

desencontrados no universo 

e reunidos no planeta pra vibrar


O espaço de um blog é muito pequeno, por isso acabei abordando um único aspecto da música do Luiz Gabriel, mas esse está longe de ser o único e também não sei como o classificar em importância dentro de sua música. Vendo seus vídeos mais antigos, me parece que essa é uma vertente que ele tem explorado mais, talvez fruto de reflexões ou vivências recentes às quais dispense mais atenção recentemente.

Poderia gastar mais alguns capítulos falando do ritmo, da harmonia, de suas várias parcerias, do volume de suas composições, que muitas vezes se assemelham a seu diário de viagens. Poderia falr do TiãoDuá, do Graveola e de vários outros projetos. Mas recomendo a quem quiser conhecer mais, que o ouça.Tem muita coisa na Youtube e no Soundcloud.

Como acabei me focando muito em um aspecto da música do Luiz Gabriel, vou tentar corrigir meu erro deixando abaixo uma playlist que preparei que mostra seu trabalho de forma um pouco mais .abrangente



segunda-feira, 17 de março de 2014

Small blue dot, pale blue dot

Em 1990, a espaçonave Voyager 1 tirou uma foto da Terra a uma distância de 6 bilhões de quilômetros. Na fotografia, o planeta é tão pequeno que aparece como um ponto que mal se pode ver.



Alguns anos depois, o astrônomo Carl Sagan alocou os seres humanos no contexto de um infinito em seu livro Pale blue dot, que foi inspirado por essa fotografia. Seu discurso de 1996 é adaptado desse livro.


Olhe novamente para aquele ponto. Esse ponto é aqui. É a nossa casa. Somos nós! Nele, todos que você ama, todos que conhece, todo mundo de quem já ouviu falar, cada ser humano que existiu, viveu sua vida até o fim ali. Toda a soma de nossa alegria e sofrimento, as milhares de confiantes religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e cada fugitivo, cada herói e cada covarde, todo criador e todo destruidor de civilizações, todo rei e todo servo, todo casal apaixonado, cada mãe e cada pai, criança esperançosa, inventor e descobridor, todo professor de moral e cada político corrupto, cada superstar, cada líder supremo, todo santo e todo pecador da História de nossa espécie viveu ali: num monte de poeira suspensa num raio de sol.


A Terra é um palco muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por tantos generais e imperadores para que, em glória e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim sofridas pelos habitantes de um canto desse pixel, pelos habitantes que mal se pode enxergar de algum outro ponto, o quão frequentes seus desentendimentos, o qual diligentes são para matar uns aos outros, o quão borbulhantes suas antipatias. Nossas posturas, nossa imaginada auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo. sã desafiados por esse ponto de luz pálida. Nosso planeta é um pontinho solitário num escuro cósmico que o abarca. Em nossa obscuridade, em toda essa imensidão, não há nenhum sinal de que ajuda virá de algum lugar para nos salvar de nós mesmos.

A Terra é o único mundo que conhecemos. Não há nenhum outro lugar, pelo menos não no futuro próximo, para o qual nossas espécies poderiam migrar. Visitar, sim. Se estabelecer, ainda não. Goste ou não, para o momento, a Terra é onde nos estabelecemos. Diz-se que a astronomia é uma ciência que constrói nosso caráter e nos torna humildes. Talvez não haja melhor demonstração da tolice que é a presunção humana que a distante imagem de nosso minúsculo mundo. Para mim, ela sublinha nossa responsabilidade de lidar de forma mais gentil com o outro, preservar e amar nosso pequeno e pálido ponto, o único lar que conhecemos.



Foi inspirado nessa fotografia, nesse texto e nessa ideia de nossa pequenez no Universo, mas ao mesmo tempo de nosso amor e de nossa capacidade de sonhar e de amar, que escrevi Small blue dot.