Hoje, quero falar de Luiz Gabriel Lopes. Confesso que, apesar de ter entrado em contato direto com seu trabalho há alguns meses, ainda conheço muito pouco sobre ele. Tenho apenas algumas impressões sobre sua música a apresentar.
É um ponto de vista personalíssimo e cheio de buracos, fruto do pouco que conheço e do que ignoro. Neste texto, inclusive, acabo abordando um aspecto bem específico de suas composições, em especial das letras.
É um ponto de vista personalíssimo e cheio de buracos, fruto do pouco que conheço e do que ignoro. Neste texto, inclusive, acabo abordando um aspecto bem específico de suas composições, em especial das letras.
Ter entrado em contato com sua música foi ter encontrado um verdadeiro manancial de ideias sonoras e uma poesia muito sensível, ao mesmo tempo em que muito direta e sem adornos desnecessários.
A primeira que ouvi foi Lembrete (LG Lopes / Gustavito / Chicó do Céu), que em minha opinião é bem representativa de um dos traços mais interessantes de algumas de suas letras.
A primeira que ouvi foi Lembrete (LG Lopes / Gustavito / Chicó do Céu), que em minha opinião é bem representativa de um dos traços mais interessantes de algumas de suas letras.
É algo de que sinto muita falta na arte atual, mas que acho difícil definir. Tem a ver com talvez um dos mais antigos papéis da arte, que é representar a ligação do homem com o desconhecido. Não se trata, porém, do desconhecido como mistério, mas de uma jornada em direção ao auto-conhecimento e ao conhecimento do universo ao seu redor.
despertar pra uma nova travessia
deixar esvaziar
saber que a hora certa logo vem
sem pressa, deixa estar que não demora
deixar esvaziar
saber que a hora certa logo vem
sem pressa, deixa estar que não demora
Acho significativo o fato de alguém parecer cantar "depressa" ao invés de "sem pressa" no vídeo. É muito difícil remar contra essa maré da pressa, eficiência, velocidade máxima o máximo de tempo possível. Mas a arte ajuda!
Se concentre meu amigo
no impulso que nos faz cantar
e faz brotar a poesia sempre devagar
e é devagar que se desfaz
todo medo que insiste em apertar os nós mas meu amigo
reconhece-te a ti mesmo
dê valor ao caminho que te escolhe
palavras têm poder
e os rastros que deixamos por aí
depressa vão chegar no infinito
no impulso que nos faz cantar
e faz brotar a poesia sempre devagar
e é devagar que se desfaz
todo medo que insiste em apertar os nós mas meu amigo
reconhece-te a ti mesmo
dê valor ao caminho que te escolhe
palavras têm poder
e os rastros que deixamos por aí
depressa vão chegar no infinito
Esse "libertar (d)o medo" também está muito presente em suas letras. A fé naquilo que vem "do alto", a vida guiada pelas estrelas, o ritmo natural, das marés, da chuva. Expressões de vida tão naturais quanto despertar para dentro. Para isso, é necessário Desprendimento.
sono da maré
oração da chuva
deixa essa criança libertar o medo que você guardou
estrelas que levem no rumo certo
a estrada é o que vale a viagem
livre da tristeza o passo firme o peito forte aberto
oração da chuva
deixa essa criança libertar o medo que você guardou
estrelas que levem no rumo certo
a estrada é o que vale a viagem
livre da tristeza o passo firme o peito forte aberto
ir pra dentro é despertar
desprender o brilho e receber o dia
desprender o brilho e receber o dia
Indo por esse caminho, a música vai além do mero exercício poético, do jogo de palavras, mas é veículo a expressar e despertar ideias e sentimentos que vou chamar aqui de maiores, na falta de um termo mais exato. E, através da simplicidade de sua forma, a letra consegue algo extremamente difícil: falar da existência humana, de sua fé, sem ser dogmático ou piegas. Consegue, de forma muito sutil, evocar os melhores sentimentos de paz e harmonia. Abaixo, um trecho de 1986.
transformando a fé numa oração pra se cantar
sim eu sei que há
essa poeira que te faz latinoamericano e forte como eu
de sangue índio, vagabundo,
abençoado pelo rio e pelo sol:
ancestralidade de um cometa
que passou naquele ano em que eu nasci
e me contou que éramos muitos por aí
desencontrados no universo
e reunidos no planeta pra vibrar
O espaço de um blog é muito pequeno, por isso acabei abordando um único aspecto da música do Luiz Gabriel, mas esse está longe de ser o único e também não sei como o classificar em importância dentro de sua música. Vendo seus vídeos mais antigos, me parece que essa é uma vertente que ele tem explorado mais, talvez fruto de reflexões ou vivências recentes às quais dispense mais atenção recentemente.
Poderia gastar mais alguns capítulos falando do ritmo, da harmonia, de suas várias parcerias, do volume de suas composições, que muitas vezes se assemelham a seu diário de viagens. Poderia falr do TiãoDuá, do Graveola e de vários outros projetos. Mas recomendo a quem quiser conhecer mais, que o ouça.Tem muita coisa na Youtube e no Soundcloud.
Como acabei me focando muito em um aspecto da música do Luiz Gabriel, vou tentar corrigir meu erro deixando abaixo uma playlist que preparei que mostra seu trabalho de forma um pouco mais .abrangente