sábado, 10 de setembro de 2011

Lô Borges - A Via-láctea



Inaugurando o espaço para comentários sobre discos inesquecíveis, quero falar de um disco que está com toda certeza entre meus preferidos de todos os tempos. Segundo disco solo de Lô Borges, A Via-láctea foi lançado seis anos após o disco do tênis. Houve um hiato grande entre esses dois discos pois o disco do tênis foi gravado sob muita pressão, tendo sido gravado no mesmo ano em que Clube da Esquina, álbum que Lô, na época com 17, 18 anos, foi convidado a dividir com Milton Nascimento.

Segundo Lô: "Existe um grande hiato entre os discos Tênis e Via Láctea exatamente porque aí eu queria me estruturar como compositor. Foi a coisa mais sábia que eu fiz na minha vida, foi interromper a minha carreira naquele momento, minha carreira discográfica. Porque aí eu fui me solidificar como compositor, como ser humano, como, eu quis. Aí, eu fui sabe, viver a minha vida, ter uma bagagem musical, ter músicas pra quando eu fizesse um disco não precisasse fazer a música de manhã, a letra de tarde e a música à noite, e a gravação à noite. Aí eu parei seis anos, não parei com a música, pelo contrário, aí eu comecei a compor, falei, pô existe uma perspectiva profissional na minha vida, interessante, eu tenho que me solidificar como compositor, tenho que ter uma bagagem, eu tenho que ter uma quantidade de músicas suficiente pra quando eu for convidado a fazer um disco. Fazer um disco sem ser essa pilha, esse stress que foi o disco do tênis, entendeu?"

A Via-Láctea foi lançado em 1979 e teve como produtor Milton Nascimento. A maioria das canções surgiu de parcerias do Lô com seu irmão Márcio Borges e foram escritas quando o Márcio morava num casarão no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro.

O lado A do disco é aberto apenas por um violão, que logo é acompanhado por toda a banda num ritmo inconfundível e altamente contagiante. Sempre-viva tem letra de Márcio Borges.

"Já estava bem preparado no ventre de toda mulher
Já escrito assim na parede das celas
das praças de qualquer país

Passageira chama fogo da vida
A vontade livre tudo intimida por simples ser"

Em seguida, temos a balada Ela, que também tem um ritmo delicioso. Aliás, o ritmo é um elemento importantíssimo nesse disco e em toda a carreira do Lô. Assim como Ela, várias das músicas desse disco são em compasso ternário. Destaco, entre tantos elementos, o Arp Omni tocado por Wagner Tiso e as guitarras do Lô, do Paulinho e do Cláudio Venturini. Como, durante anos, eu fiquei sem saber o que era um Arp Omni, aí vai uma foto desse maravilhoso sintetizador.

Parceria de Lô Borges e o carioca Ronaldo Bastos, A Via-láctea, terceira canção do disco, é daquelas canções que são fantásticas em todos os seus aspectos, ficando difícil destacar alguma coisa sem ser injusto com muitas outras. A orquestração e regência foram feitas pelo Toninho Horta, que também tocou o piano. A canção tem belíssimo arranjo de cordas e flautas, que é impossível descrever.



"Caravela
Pão e mel
segue o circo a rolar
Picadeiros
Primaveras
Coração vulgar
Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia a viver na espuma do mar
O grão de tão pequeno ser tão grande o que a gente é
Ter esse destino de pessoa que sonhou

Que navega no céu
e navega no ar
grão de areia a bailar lá no fundo do azul
e anda que nem bola, como a vida quando quer brotar
rola como onda, que nem fonte de calor"


Em seguida temos Clube da Esquina nº2, que foi originalmente gravada no álbum Clube da Esquina, como instrumental. Na época, segundo Márcio Borges, todos os letristas chegados aos autores (Lô Borges e Milton Nascimento) queriam colocar letra na música, mas não recebiam permissão dos dois ("senão deixa de ser instrumental"). Num encontro com Nana Caimmy, Márcio foi encorajado por ela a escrever uma letra porque ela queria "gravar essa porra, mas sem letra não dá". Ela lhe sugeriu que ele fizesse a letra e ela gravaria, e só então ela mesmo mostraria a Lô e Milton. E foi o que ela fez. Apesar de o Milton ainda ter resisitido um pouco à idéia, Clube da Esquina agora tinha letra, e uma letra belíssima. Certamente uma das minhas letras preferidas, cantada pelo Lô e sua irmã, Solange Borges, dona de uma linda voz e que também canta em Vento de maio.


"Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
viagem de ventania
nem lembra se olhou pra trás
ao primeiro passo, aço, aço, aço, aço

porque se chamavam homens
também se chamavam sonhos
e sonhos não envelhecem
em meio a tantos gases lacrimogênios
ficam calmos calmos calmos calmos calmos

e lá se vai mais um dia

e basta contar compasso
e basta contar consigo
que a chama não tem pavio
de tudo se faz canção
e o coração na curva de um rio rio rio

e lá se vai mais um dia

e o rio de asfalto e gente
entorna pelas ladeiras
entope o meio-fio
esquina mais de um milhão quero ver então
a gente gente gente gente gente"


Em seguida temos a "sinfônica" A olho nu, que começa com piano e um baixo que canta as notas fazendo um contraponto muito bom com a melodia da voz. Toda a parte rítmica dessa música funciona muitíssimo bem, e a brilhante orquestração do Wagner Tiso dá o peso exato que a música precisa ao mesmo tempo em que passa uma leveza enorme nos momentos certos. A vinheta no fim da música é um dos momentos mais empolgantes do disco, com a guitarra do Cláudio Venturini gritando. Aproveitando a menção ao baixo, é importante frisar que, nesse disco, o baixo desempenha um espetáculo à parte. Do início ao fim, é tocado brilhantemente por Paulinho Carvalho. Sou guitarrista, mas se tenho um baixo e tenho enorme apreciação por esse instrumento, grande parte disso se deve às emoções que já experimentei ouvindo o baixo nesse disco.

O lado B começa com o piano e órgão de Equatorial, que é parceria de Lô Borges e Beto Guedes e tem letra de Márcio Borges.

Depois temos Vento de maio, que foi outra letra feita pelo Márcio Borges sem o conhecimento do autor, no caso seu irmão Telo. "Telo tinha composto dois pequenos temas para duas peças infantis produzidas por um grupo de teatro amador em Belo Horizonte." Lô queria fazer uma surpresa para o irmão, unificando os dois temas através de uma única letra e gravar a música primeiro, antes de lhe mostrar.
Segundo Márcio Borges, "sentia-me triste, sozinho e abandonado. A letra que saiu foi Vento de maio".




"Vento de raio
rainha de maio
estrela cadente
chegou de repente
o fim da viagem
agora já não dá mais pra voltar atrás"

Ainda segundo ele, é citado o poeta Paulo Leminsky ("Este Paulo Leminsky/É um cachorro doido/que deve ser morto/a pau, a pedra, a pique/Senão é bem capaz/ o filho da puta/ de fazer chover no meu piquenique") no trecho

"...valeu o teu pique
apenas para chover
no meu piquenique..."

Depois, de Fernando Orly, temos a belíssima Chuva na montanha, que tem uma guitarra marcante tocada por Lô e conta com fernando Orly na viola de 12.

"corre estrada gira mundo e na cabeça
torre de babel
como pode haver um rio
sem a chuva da montanha
pra poder seguir
sou um rio que procura o mar
minha chuva chove de você
e a gente vai andando
vai amando até o fim"

Em seguida temos a brilhante Tudo que você podia ser, que já havia sido gravada no disco Clube da esquina, mas que aqui, ganha uma interpretação totalmente nova, privilegiando o uso da guitarra e contando com um acordeon. Essa música tem um instrumental acima de qualquer crítica, por isso não vou divagar sobre ele aqui. É necessário ouvi-lo. Parafrasenado o Bilac, "ouvi-o para compreendê-lo".

"com sol e chuva
você sonhava que ia ser melhor depois
você queria ser o grande heróis das estradas
tudo que você queria ser

sei um segredo
você tem medo
só pensa agora em voltar
não fala mais na bota e no anel de Zapata
tudo que você devia ser sem medo"

Fechando o álbum, temos as belas Olha o bicho livre, de Paulinho Carvalho e Rodrigo Este e Nau sem rumo, que tem um clima que eu não consigo definir, mas que adoro.

"onde foi parar a cuca dos caras
que aguentaram a barra
de lutar por nossas ruas
mover
ou mais simplesmente ser
a poeira da estrela
ser agora e saber"


Na foto: Lô, Duca, Márcio Borges e Milton em Diamantina.